Se você olhar despretensiosamente, o futuro do emprego parecerá brilhante. Apesar do avanço do desemprego durante a pandemia – na quarta semana de julho já faltava trabalho para quase 41 milhões de brasileiros, segundo os dados da Pesquisa Nacional Pnad Covid-19 divulgados pelo IBGE – novos tipos de empregos estão surfando na onda da automação que se expande. Estas funções estão aparecendo em setores como segurança, construção civil, logística, saúde e manufatura, entre outros.

No entanto, olhar as oportunidades da automação através do otimismo dos técnicos é, na melhor das hipóteses, infantilidade. Neste processo, muitos profissionais ficarão para trás e é importante identificar quais os que serão mais afetados, com base em idade, sexo, escolaridade, região e outros fatores, e antecipar-se, atuando no que pode ser feito agora.

UMA EXPLOSÃO DE OPORTUNIDADES

De forma geral, a Inteligência Artificial (AI) e a Internet das Coisas (IoT) prometem novas oportunidades de emprego e milhões em recursos financeiros, embora alguns desses empregos tenham perfil técnicos e exijam, além de formação avançada, experiência em computação. No tocante à qualificação e à requalificação, muitos cargos serão preenchidos por pessoas com experiência já obtida, como serão os casos dos motoristas para pilotar caminhões autônomos, presencial ou remotamente.

Trabalhos remotos criarão oportunidades para pessoas com deficiências físicas, as que estejam impedidas de atuar em locais não adaptados. Também, o trabalho remoto será ideal para uma grande quantidade de trabalhadores ansiosos por sair de cidades densamente habitadas, seja para reduzir sua exposição ao CORONAVIRUS, como para experimentar melhor qualidade de vida.

Muitos postos de trabalhos poderão ser automatizados sem a eliminação de pessoas, com a tecnologia auxiliando na redução do tédio e no desgaste físico dos trabalhadores. A automação poderá aumentar a produtividade enquanto reduz o número de pessoas necessárias nas linhas de produção. Isso permitirá que os trabalhadores mantenham distâncias seguras uns dos outros, viabilizando o funcionamento dos negócios durante esta difícil atualidade.

Processos automatizados que eliminem o trabalho manual poderão desempregar os profissionais que os executavam. Mesmo que seja necessário reduzir o número de pessoas que convivam próximas por questões de saúde, o resultado líquido será menos pessoas empregadas. Esses postos de trabalho se tornarão vítimas da pandemia e da automação – e é improvável que voltem.

POSTOS DE TRABALHO “AUTOMATIZÁVEIS”

Um relatório da McKinsey, de 2019, lista quem corre maior risco de ser deixado para trás pela automação, o que consiste em você entender o quanto “automatizável” é o seu trabalho. Um outro relatório da Brookings Institution sobre automação e IA (citando os economistas David Autor, Frank Levy e Richard Murnane) aborda a questão analisando as funções a partir das habilidades: “Um trabalho é um fluxo de tarefas, às quais os trabalhadores aplicam habilidades em troca de salários. Algumas dessas tarefas podem vir a ser automatizadas, enquanto outras não poderão. Estas habilidades pertencem aos trabalhadores, que poderão se transferir para outros empregos em outras empresas – mesmo tendo uma composição diferente de tarefas.” Esta abordagem traz um de pouco consolo para aqueles que perderam os seus empregos.

Para 2030, o relatório McKinsey apontou que os empregos mais suscetíveis à eliminação incluirão as atividades meio, não relacionadas com os produtos e os serviços em finais dos processos. Os empregos com menores riscos de deslocamento incluem os relacionados à educação, funções criativas, profissões na saúde, negócios e empregos na administração de propriedades e agronegócio.

A localização é um fator importante, porque as novas perspectivas ligadas à automação tendem a se agrupar em focos geográficos, apesar das novas funções remotas. Pessoas que vivem fora de áreas de crescimento têm menor probabilidade de alcançar as novas oportunidades.

SOBREVIVÊNCIA EM UM MUNDO NOVO

Algumas organizações estão explorando maneiras de preparar os seus trabalhadores para a próxima onda de automação. Grande parte dos esforços está centrado na educação – em instituições de ensino superior tradicionais, mas também por meio de programas de certificação profissional e formação técnica, bem como, na requalificação e reciclagem. Neste momento, a sociedade como um todo, incluindo os governos, necessitam proporcionar a requalificação, tornando os novos cargos acessível para mais trabalhadores.

Cabe pressionar as instituições de ensino superior a melhorarem as taxas de retenção e a promover o aumento do número de matrículas em escolas sem fins lucrativos. As empresas devem evitar a imposição de requisitos de formação mais elevados do que os necessários, incentivando a contratação de profissionais de níveis médios, em vez de apenas aqueles com diplomas universitários. Setores público e privado precisam trabalhar juntos em programas direcionados ao aumento da consciência sobre as mudanças nos ambientes de trabalho. Oferecer suporte para o ensino superior e caminhos para a transição para melhores empregos, com melhores salários e à prova de futuro, são necessidades. É clara a demanda por uma coordenação público-privado, de modo a facilitar a transição dos trabalhadores e protegê-los contra os efeitos futuros das quedas das economias locais e regionais, e contra os efeitos negativos do deslocamento e da perda de empregos. Não todas, mas a maioria das funções ameaçadas pela automação já corriam o risco de serem deslocadas, e a pandemia acelerou o ritmo dessas mudanças.

Em vez de ver o treinamento profissional ou um diploma como terminal, os profissionais precisam aumentar seus conhecimentos e habilidades. Mas isso requer uma maneira completamente diferente de pensar. É a noção de que você está em uma jornada perpétua de aprendizado, requalificando-se com base na mentalidade de aprendizagem constante.

Manter-se atualizado é sempre um desafio, e pode parecer injusto que essas mudanças estejam acontecendo em maior velocidade por causa da pandemia. Infelizmente, essa aceleração poderá deixar muitas pessoas de fora, pelo menos a curto prazo. Uma mudança cultural em direção ao aprendizado perpétuo contribuirá muito para garantir que mais pessoas participem das vantagens da automação. Enquanto isso, um esforço concertado para identificar os empregos em maior risco poderá facilitar o caminho ao sucesso, o que fará toda a diferença.

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